Quando eu era criança tinha um livro que cheirava bem e era colorido e brilhante, vistoso. Eu lia ele quando minha mãe assistia uma novela que tinha a trilha sonora do Kiko Zambianchi - Primeiros Erros. Era um livro sobre os dinossauros, os seres mais incríveis que Deus não fez.
Lembro que o que mais fascinava era uma página que tinha o esqueleto de um Diplodocus, um simpático, herbívoro, gigante e fantástico dinossauro. Dava pra ver em tamanho real o dinossauro e eu achava muito grande. Falava pra todo mundo: nossa, você já notou como os dinossauros eram grandes? Sim, eles já haviam notado.
Dinossauros são o design perfeito, deviam fazer todos os produtos em formato de dinossauro: prédios em formatos de dinossauro, privadas, bolsas, biscoitos, sapatos, carros, melancias, pães de queijo, tudo. Vamos lembrar quem são os reis deste planeta, vamos honrar sua memória!
E que maldito seja quem mandou uma pedrinha aqui pra matá-los. Estava tudo sob controle - os humanos não iam ter a menor chance e estariam todos mortos, e eu teria nascido dinossauro.
Minha vida seria muito mais legal, ao invés de trabalhar, eu iria morder e correr e grunir. E comer toneladas de comidas chafurdando nelas vivas. E grunir de novo. E morder alguma coisa e quebrar umas árvores aí. Ser boçal com estilo. Quem precisa de inteligência com uma mandíbula do tamanho de um homem crescido?
Ou nascer dinossauro, ou ter um de estimação, no quintal. Eu ia dar filhos da puta pra ele comer. Eu ia mostrar pro meus amigos e avisar pra não pôr a mão que ele morde. Eu ia pôr uma placa no portão: cuidado com o dinossauro. Se eu perdesse ele, colocaria no poste um alerta: "Procura-se dinossauro: réptil comedor de gente. Criança doente.".
Eu morria de medo do papai noel no shopping, mas quando eu sentava lá sempre pedia um dinossauro e "HO HO HO, não prefere uma bicicleta?". Não prefiro uma bicicleta! Não prefiro! Não e não! Será que é tão difícil ganhar um dinossauro?
Estou comprando dinossauros, quem tiver um sobrando entre em contato.
domingo, 10 de janeiro de 2010
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Nascido em 4 de julho
Nasci errado, que não queria ter nascido, e fui fruto cirúrgico de algumas camadas de tecido humano dilacerados e pacientemente costurados para minha estréia.
Aos 5 anos eu era uma massa bochechuda e descontrolada de carne, contexto em que fui tragicamente atropelado pelo meu vizinho na rua de casa ao tentar alcançar o outro lado da rua por meus próprios meios, sem sucesso.
Sobrevivente, aos 7 resolvi que seria uma boa idéia unir com um grampo de metal os dois buracos da tomada. Por que separados, afinal? E ganhei uma mão enfaixada pra brincar de múmia.
Tinha um poço em casa onde eu milagrosamente jamais caí, como seria de meu feitio. Gostava de descascar a tinta do muro dos fundos do quintal pra tentar recriar o mapa mundi. Dos mesmos fundos de quintal eu decolei em meu primeiro sonho de voar, entrando pela janela da cozinha e acordando prematuramente por não conseguir desviar da torneira.
Na unica partida de beisebol que disputei na minha vida, busquei obstinado apanhar a bolinha que meu irmão lançou e que encontrou seu destino em minha mão direita, alguns centímetros além da porta de vidro. Para minha infelicidade, a porta estava fechada. Para infelicidade da porta, eu não notei. Como vingança, reduziu-se à pequenos estilhaços que perfuraram impiedosamente a fina pele do meu braço.
Com 8 anos, eu estava confiante de que havia conseguido finalmente montar um videogame à partir da embalagem de meu relógio à prova d'água. Alguns botões desenhados e um recorte pra entrada dos cartuchos e voilà, um videogame construído do zero. Nunca consegui jogá-lo, por motivo de meu pai ter recusado-se a ligá-lo na TV, o que era uma tarefa terrivelmente complexa pra mim.
Começei então a depositar todas as minhas esperanças na promoção do Toddy que sortearia 1 Mega Drive. Eu nunca tinha visto um na minha frente, mas a pequena foto impressa na embalagem do achocolatado me fascinava de uma forma que eu jamais senti de novo. Acordei por repetidas vezes na madrugada e me aventurei sozinho para a escura e colossalmente gigantesca cozinha de minha casa em busca da embalagem que teria a foto do então objeto mais desejado de toda a minha vida.
Esse último episódio marcou profundamente meu caráter, me ensinando que nada se ganha, que o fascínio pode ser perigoso, que os videogames são fantásticos e que o Toddy empelota. Meu Mega Drive veio só no aniversário, mas veio, antes tarde do que nunca, e fui feliz para sempre.
Aos 5 anos eu era uma massa bochechuda e descontrolada de carne, contexto em que fui tragicamente atropelado pelo meu vizinho na rua de casa ao tentar alcançar o outro lado da rua por meus próprios meios, sem sucesso.
Sobrevivente, aos 7 resolvi que seria uma boa idéia unir com um grampo de metal os dois buracos da tomada. Por que separados, afinal? E ganhei uma mão enfaixada pra brincar de múmia.
Tinha um poço em casa onde eu milagrosamente jamais caí, como seria de meu feitio. Gostava de descascar a tinta do muro dos fundos do quintal pra tentar recriar o mapa mundi. Dos mesmos fundos de quintal eu decolei em meu primeiro sonho de voar, entrando pela janela da cozinha e acordando prematuramente por não conseguir desviar da torneira.
Na unica partida de beisebol que disputei na minha vida, busquei obstinado apanhar a bolinha que meu irmão lançou e que encontrou seu destino em minha mão direita, alguns centímetros além da porta de vidro. Para minha infelicidade, a porta estava fechada. Para infelicidade da porta, eu não notei. Como vingança, reduziu-se à pequenos estilhaços que perfuraram impiedosamente a fina pele do meu braço.
Com 8 anos, eu estava confiante de que havia conseguido finalmente montar um videogame à partir da embalagem de meu relógio à prova d'água. Alguns botões desenhados e um recorte pra entrada dos cartuchos e voilà, um videogame construído do zero. Nunca consegui jogá-lo, por motivo de meu pai ter recusado-se a ligá-lo na TV, o que era uma tarefa terrivelmente complexa pra mim.
Começei então a depositar todas as minhas esperanças na promoção do Toddy que sortearia 1 Mega Drive. Eu nunca tinha visto um na minha frente, mas a pequena foto impressa na embalagem do achocolatado me fascinava de uma forma que eu jamais senti de novo. Acordei por repetidas vezes na madrugada e me aventurei sozinho para a escura e colossalmente gigantesca cozinha de minha casa em busca da embalagem que teria a foto do então objeto mais desejado de toda a minha vida.
Esse último episódio marcou profundamente meu caráter, me ensinando que nada se ganha, que o fascínio pode ser perigoso, que os videogames são fantásticos e que o Toddy empelota. Meu Mega Drive veio só no aniversário, mas veio, antes tarde do que nunca, e fui feliz para sempre.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Sono
O sono já penetrou em minha mente e fica deslizando por ela como que nos tubos de um parque aquático. Dentre sonhos que perdi à pesadelos que evitei, mal posso pensar na fofura dos travesseiros firmes e surrados que abandonei na cama antes de sair.
Ficou gravada em pedra na minha memória, fincada nas raízes mais profundas da minha razão, a suavidade dos lençóis que forravam o formidável colchão de molas no qual repousava meu corpo quase defunto antes do despertar estúpido do celular.
Noite antes, bem dormida essa, sonhei feliz uma moça bonita me despertando com um beijo nos lábios, a abertura lenta de minhas pálpebras revelando seu amável rosto, seus olhos azuis, que virou de lado revelando um céu mais azul ainda, que nunca vi, e com um lago refletor de uma paisagem bucólica e com uma silenciosa sonoridade de vento.
Mas a vida não dá trégua: não tracei esse caminho, não terei esse destino. Ao invés da moça, o despertador me beijou de gosto azedo, revelou o teto rebocado de meu quarto, o barulho esclarecedor dos ônibus, o fedor caracterítico das cidades e a desgraça inerente da vida suburbana.
Ó sono, você, senhor da minha vida e provedor de minhas angústias, que me cativa, que me convida pra sair todas as noites e que me deixa sozinho na cama todas as manhãs. Sono que me mata a fome, a sede, a libido. Me leva e trás de toda a sorte de lugares, me dá o gostinho da morte todos os dias.
Sono, pudera eu lhe acompanhar essa manhã.
Ficou gravada em pedra na minha memória, fincada nas raízes mais profundas da minha razão, a suavidade dos lençóis que forravam o formidável colchão de molas no qual repousava meu corpo quase defunto antes do despertar estúpido do celular.
Noite antes, bem dormida essa, sonhei feliz uma moça bonita me despertando com um beijo nos lábios, a abertura lenta de minhas pálpebras revelando seu amável rosto, seus olhos azuis, que virou de lado revelando um céu mais azul ainda, que nunca vi, e com um lago refletor de uma paisagem bucólica e com uma silenciosa sonoridade de vento.
Mas a vida não dá trégua: não tracei esse caminho, não terei esse destino. Ao invés da moça, o despertador me beijou de gosto azedo, revelou o teto rebocado de meu quarto, o barulho esclarecedor dos ônibus, o fedor caracterítico das cidades e a desgraça inerente da vida suburbana.
Ó sono, você, senhor da minha vida e provedor de minhas angústias, que me cativa, que me convida pra sair todas as noites e que me deixa sozinho na cama todas as manhãs. Sono que me mata a fome, a sede, a libido. Me leva e trás de toda a sorte de lugares, me dá o gostinho da morte todos os dias.
Sono, pudera eu lhe acompanhar essa manhã.
Resumo da minha vida
Nasci em 4 de julho de 1986, não me lembro.
Aos 5 me atropelei com o carro do vizinho. Aos 6 quebrei a vitrola da sala e culpei meu irmão. Aos 7 eu me jogava no chão pra brincar de plataformer 2D pisando nas paredes. Aos 8 eu estourei a porta de vidro com meu próprio braço jogando baseball e sangrou.
Aos 9 arrebentei meu joelho no chão e minha mãe lavou no banheiro. Aos 10 eu ganhei o mortal kombat 3 na abertura das olimpíadas de Atlanta. Aos 11 eu ganhei meu computador e virei nerd. Aos 12 eu fui sequestrado.
Aos 13 aprendi a violar tocão. Aos 14 eu ganhei dinheiro pra comprar um dvd player. Aos 15 eu conheci a Cynthia. Aos 16 eu estudei no Rei do Mate. Aos 17 eu passei dos 100. Aos 18 eu não passei no vestibular. Aos 19 eu trabalhei construindo engenhocas de telecomunicações. Aos 20 eu estudei e namorei e fui feliz. Aos 21 eu trabalhei pra Opus Dei.
Aos 22 eu comprei um Wii. Aos 23 vou querer comprar um dinossauro.
Aos 5 me atropelei com o carro do vizinho. Aos 6 quebrei a vitrola da sala e culpei meu irmão. Aos 7 eu me jogava no chão pra brincar de plataformer 2D pisando nas paredes. Aos 8 eu estourei a porta de vidro com meu próprio braço jogando baseball e sangrou.
Aos 9 arrebentei meu joelho no chão e minha mãe lavou no banheiro. Aos 10 eu ganhei o mortal kombat 3 na abertura das olimpíadas de Atlanta. Aos 11 eu ganhei meu computador e virei nerd. Aos 12 eu fui sequestrado.
Aos 13 aprendi a violar tocão. Aos 14 eu ganhei dinheiro pra comprar um dvd player. Aos 15 eu conheci a Cynthia. Aos 16 eu estudei no Rei do Mate. Aos 17 eu passei dos 100. Aos 18 eu não passei no vestibular. Aos 19 eu trabalhei construindo engenhocas de telecomunicações. Aos 20 eu estudei e namorei e fui feliz. Aos 21 eu trabalhei pra Opus Dei.
Aos 22 eu comprei um Wii. Aos 23 vou querer comprar um dinossauro.
convite oficial de aniversário
Meu aniversário de 23 anos. Procure ir nos outros 22 antes pra não pegar no meio.
vinte e três
vinte e três ovos na caixa falta um
vinte e três balas de café pra acordar
vinte e três musicas mal cabem num cd
vinte e três casas pra alugar
vinte e três horas é onze
vinte e três anos é tempo
vinte e três reais é dinheiro
vinte e três quilos é peso
vinte e três é primo
vinte e três primos não tenho
vinte e três macacos se reconhecem no espelho
vinte e três crianças dão sussego
vinte e três verrugas nos dedos
vinte e três passagens por subempregos
vinte e três uvas passas no bolo
vinte e três degraus pra chegar no banheiro
vinte e três beatles morreram
vinte e três litros de água de esgoto
vinte e três furinhos tampados no chuveiro
vinte e três pingas de cheiro no bar do seu anísio
vinte e três peças de legos pra montar o sonic
vinte e três filmes com o jim carrey
vinte e três mãos esquerdas não me fariam canhoto
vinte e três vezes morei no alasca
vinte e três carecas desgraçados
vinte e três maria moles descascadas
vinte e três coisas pra fazer ao invés de ir lá
vinte e três motivos pra ser marginal
vinte e três anos morrendo
vinte e três dias correndo
vinte e três minutos escrevendo
vinte e três balas de café pra acordar
vinte e três musicas mal cabem num cd
vinte e três casas pra alugar
vinte e três horas é onze
vinte e três anos é tempo
vinte e três reais é dinheiro
vinte e três quilos é peso
vinte e três é primo
vinte e três primos não tenho
vinte e três macacos se reconhecem no espelho
vinte e três crianças dão sussego
vinte e três verrugas nos dedos
vinte e três passagens por subempregos
vinte e três uvas passas no bolo
vinte e três degraus pra chegar no banheiro
vinte e três beatles morreram
vinte e três litros de água de esgoto
vinte e três furinhos tampados no chuveiro
vinte e três pingas de cheiro no bar do seu anísio
vinte e três peças de legos pra montar o sonic
vinte e três filmes com o jim carrey
vinte e três mãos esquerdas não me fariam canhoto
vinte e três vezes morei no alasca
vinte e três carecas desgraçados
vinte e três maria moles descascadas
vinte e três coisas pra fazer ao invés de ir lá
vinte e três motivos pra ser marginal
vinte e três anos morrendo
vinte e três dias correndo
vinte e três minutos escrevendo
Sopa de babaca
Sopa de babaca:
- 1 litro de água.
- 1 kg de babaca.
- 1 litro de água.
- 1 kg de babaca.
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