quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Não posso morrer

Só tenho vinte e cinco anos, não é idade de se morrer. Não, quero mais muitos anos. Vou fazer tanta falta para alguém. Vou deixar tanta coisa por fazer. Vinte e cinco é muito cedo: não posso morrer.

Um puxão no gatilho e já era. Um tropeção na bordinha. Atropelado na estrada, engasgado com osso de galinha, esfaqueado, acidentado, doente, traído... Tantas formas de morrer que me admiro ainda estar vivo.

Pensando bem, não sei meu prazo. Não me sinto pronto. Será que um dia me sentirei? Quem precisa estar pronto para morrer? Morrer é tão fácil - todos vamos morrer.

Aos dez na escola, aos vinte na faculdade, aos trinta no trabalho, aos quarenta casado, aos cinquenta com filhos, aos sessenta aposentado, aos setenta avô, aos oitenta descansando. Com noventa, lamentamos quem se for. Aos cem já é hora extra! Mais do que isso dá no jornal. Todas essas coisas da vida estão na história dos outros, não na minha. Não ainda. Todas as minhas aspirações, os sonhos, os planos, todos são cópias de vidas já vividas.

Não posso morrer.

E se eu morrer?

A morte será o fim de todas as coisas para mim: dos amigos e inimigos, dos doces e refrigerantes, dos videogames, dos amores, dos cometas, das frustrações, das preocupações, das batatas, das alegrias, das guerras e dos dinossauros.

Ela vai me tirar tudo, vai mudar tudo para nada. Eu não posso, não quero morrer!

Sem a morte, resta a eternidade. Viver para sempre, poder sempre contar com o amanhã. E com o depois de amanhã. E com o depois de depois de amanhã. E saber que não importa quanto tempo passe, eu ainda mal comecei.

Com tempo ilimitado, posso fazer tudo. Posso conhecer todos os lugares, ler todos os livros, ver todos os filmes, jogar todos os jogos, praticar todos os esportes, pedir todos os sabores de pizza. Serei sábio, habilidoso, experiente.

Nenhum desafio me intimidará se não tiver a morte para encerrar minhas tentativas. As escolhas não serão importantes, eu vou ter tempo para viver todas as experiências.

Mas se as escolhas não são importantes, também não há satisfação em tomar a correta. Não há frustração em tomar a errada. Não haverão consequências que não possam ser revertidas. Em algum momento, nada será inédito, nada vai surpreender. Nada vai me desafiar, nada vai me entreter, nada vai me doer e nada vai me aliviar.

A vida dividida num tempo que corre infinito tende a zero. É simples como na matemática.

A eternidade é o único castigo do qual não poderíamos escapar. Só pensar nela já faz eu querer me matar.

Morte, conto com você.

27 comentários:

Lidia Marques disse...

agora quem quer se matar sou eu..
haiuhaiuaa
feliz dia de finados.
nao pra nós, por favor

@guiguiwvv disse...

que legal, foi vc que esventou isso?

guilherme van veen disse...

fico pensando se um shinigami um dia vai escrever meu nome no Death note

Leandro S. disse...

Bem interessante seu texto.

Enquanto isso tem gente egoísta que esquece de viver essa vida apenas pensando numa suposta "vida eterna"... Como se fosse um coyote em busca do inatingível papa-léguas, e quando finalmente o alcança não saberia o que fazer com ela e sua vida não teria mais sentido.

@riodevs disse...

Interessante leitura... Por um momento inclusive, me fez lembrar de Raul Seixas com a música Canto Para Minha Morte.

Elaine disse...

nossa!! profundo isso !!! acho que só vamos entender a morte depois que ela vier! prefiro não entender!

MIRELLA disse...

7 bilhões de pessoas no mundo e a morte ainda é a única certeza... Será? Mas o quê é a morte? Quando será que o Chaplin vai morrer? O Kerouac, o Lenon, o Nietzsche??
Como morrem as idéias? Como a morte imortaliza? Pra quê pensar tanto nisso se nem nos preocupávamos com a vida antes de nascer?

Anônimo disse...

foda =0

Gabriela disse...

A morte, o único mal irremediavel. o final é épico...parabéns.

Anônimo disse...

cara, essa é uma questão que deixa agente meio desmotivado as vezes, por que correr atrás de dinheiro ou de conhecimento, ou de diversão se tudo o que agente faz hoje, um dia será apagado pelo tempo?

@danielsalmitoc disse...

Prefiro a eternidade com seu possivel tedio a uma morte de incerteza

Anônimo disse...

dizem alguns cientistas que essa impressão de que não vamos morrer nunca, a despeito das evidências, acontece pq não temos memórias do nosso nascimento. sem começo, não percebemos de fato a possibilidade do fim...


... eu não entendo pq o google pede pra eu logar qdo já tou logado no gmail.

Kumiera disse...

sabe é dificíl ter um blog como se faz pro pessoal comentar tanto sobre um artigo??caso queiram ver comecei uns 2 dias atrás

http://www.kumieira.blogspot.com/

Tiago disse...

Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte.

Charles Bukowski

Gabriele Albuquerque Silva disse...

Texto muito bacana!

sgrj340 disse...

Olá Diego, Muito interessante o texto. Me lembrei da música do Raul. Fiquei muito feliz que finalmente postou mais um vídeo, já ouvi bastante sobre "A Privataria Tucana", certamente será minha próxima aquisição. Tenho certeza que vai gostar de um livro chamado "confissões de um assassino econômico". Este fala sobre profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países do mundo todo, desviando recursos da ordem de trilhões de dólares. Abraço e espero por mais vídeos. May the force be with you.

sgrj340 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas disse...

Fiz esse site de games.
Gostaria q vc desse uma olhada.
http://torrentl.com.br/
deixe um comentario lá nos videos.
valew

Randons Games disse...

faiz mais video Diego.....seu gordo...porra

Manuella Kleemann disse...

Tu que escreveu? Passe no meu blog de textos e poesias. Meu intuito para daqui um tempo é publicar em exemplares.

JackassBR disse...

Da um olhada https://www.youtube.com/watch?v=woDcxC9A7JI

Thais Aboud Campmany disse...

Sinistro e, ao mesmo tempo, inspirador. '-'
bjos :*

Luiz Pierotti disse...

Legal, achei bem legal. Um existencialismo forte que vai travando uma luta pesada com materialismo e tal. E a linguagem está bem boa também, hm? Flui como fluxo de pensamento mesmo, chega longe, depois puxa para o pessoal, volta ao mundo.
Ta jóia, como diriam os sabidos.

Anônimo disse...

Tcharam! eis que surge um lugar em que eu posso deixar um recadinho e permanecer anônima :) que beleza. ow, não é nada não. é só que bom que vc é vc e faz o que faz. eu não vou ao brasil há muito tempo e não posso mensurar o quão celebridade vc é... então sei lá se isso vai ser lido, mas que se lixe tb se não for, a intenção foi das melhores. vc é foda. é novo pra caramba e me parece ser muito mais desperto que muita gente "experimentadíssima" que conheci pelo mundo afora. não sou sua fã pq isso de ser fã é uma bizarrice que não cabe na minha cabeça, mas como direi... "tô contigo" :) e o mundo tá ficando melhor por conta de quem já entendeu que desiludir é melhor. seu último vídeo "aquele em que você não merece" me deu uma alegria enorme... é foda que muitos assistam de onda, só pq muita gente tá vendo, mas foda-se! que seja por osmose, acaba entrando nem que seja um pouquinho. eu sei que vc já sabe, mas eu quero falar: vc é importante. MUITO importante. se vc puder mesmo "ganhar a vida" fazendo isso, será sensacional! eu não tenho vontade de te falar "obrigada", mas eu sinto gratidão. e não, não sou uma hippie quarentona que acabou de fumar um. mas se eu fosse tb, não ia fazer a menor diferença. um abraço procê, com um carinho estranho (afinal, eu não te conheço... rsrrs) De Ninguém

Anônimo disse...

huahuhaa... ficou parecendo que "De Ninguém" é tipo um nickname safadjenho, mas não é não. hehee. mas eu sei que vc entendeu :) :P

Anônimo disse...

e já agora, sobre o último post do aqui do blog: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=428121370569239&set=a.261714877209890.61540.261705443877500&type=1&ref=nf

e bonjour.

Anônimo disse...

Muito bo cara, isso me faz lembrar uma frase de Steve Jobs: "Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você está nú. Não há razão para não seguir seu coração."